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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 01

Caminhando às margens do Rio Guadalquivir, saindo de Sevilha, a velha cigana caminhava a passos largos puxando pela mão a menina que, cansada, parava.... Para com um puxão ser, novamente, colocada em marcha. A cigana tinha em mente apenas um objetivo, livrar sua neta do subjugo tirânico de seu pai, para isso a saída de Sevilha precisava ser vencida antes do amanhecer. Ainda ouviam-se, ao longe, os últimos e festivos andaluzes que amanheciam entretendo os turistas com a dança flamenca, típica da região.

Ao aproximar-se da estrada de terra, a velha cigana fez sinal para que a carroça se aproximasse.

- Vovó. Estou com medo!

- Não tenha! Encontrará a felicidade muito longe daqui.

- Como pode saber? Não quero ir embora!

- Apenas sei... E você saberá também. Precisa ir!

- Como... Como sabe?

- Virá até você!

- Quem?

- Seu destino Inka... Seu destino...

- Mas e... Ele... Ele pagou por mim... Como meu pai vai...?

- Inka... Seu pai devolverá o dinheiro a ele. Agora vai!

A menina, com os olhos marejados viu o carroceiro se aproximar. Ele freou os cavalos ao lado das duas ciganas.

- Tem certeza velha?

- Tenho, tire-a daqui... Da mesma forma que fez com Vana há 10 anos atrás.

- A viagem é difícil...

- Não importa!

- O navio parte à noite... Não tem volta!

- Leve-a...

Terminou de falar e estendeu ao carroceiro um envelope com algumas notas em dinheiro. Antes de ajudar a menina subir, a cigana mais velha segura-a pelos ombros. O olhar negro da jovem cigana refletia o pavor que ela estava sentindo..

- Inka, não desvie-se no caminho... Procure sua tia Vana. O endereço está na sua bolsa. Entregue a ela a carta que está junto e nunca mais volte aqui. Vá ao encontro do seu destino!

Empurrou a menina para cima da carroça e fez sinal para que o carroceiro seguisse. Ficou por alguns instantes vendo sua neta se afastar. Secou as lágrimas que molhavam seu rosto. Sabia que não havia outra saída, tinha que mandá-la embora...





14 anos depois, algum sábado do mês de janeiro, do ano de 2006... Do outro lado do Atlântico.

No interior de uma loja de produtos esotéricos localizada em um grande shopping de uma capital no sul do Brasil, as pessoas entravam e saiam, alheias a toda discussão que acontecia nos fundos da loja.

- Tia Vana, eu não quero participar disso, sabe que não gosto dessa forma de exposição.

- Minha filha, por favor, eu não tenho mais ninguém. Mena está doente e Siona viajou. Com muito custo consegui que Carmela fique entregando as senhas. Você sabe como são essas ciganas... E, precisamos de representação na feira. Estamos patrocinando o evento.

- Tia... Não concordo com isso... Falei que não me envolveria nisso... – A jovem respondeu irritada enquanto separava os blocos de notas.

- Por favor, Inka... Preciso de você. E além do mais você sabe que é a melhor de nós.

- Tia....

- Por favor...

- Está certo... O que não faço por você? Mas preste atenção! Só amanhã, para os outros dias consiga outra.

- Minha sobrinha linda... Sabia que não me deixaria na mão. - Abraçaram-se.

- Que horas começa? - A mais jovem perguntou com resignação.

- Na hora que abrir. Durma cedo hoje. Esteja aqui amanhã às 10 horas e enquanto você estiver lá, cuido da loja.

- Estarei, tia. Estarei.

E saiu em direção a frente da loja para ajudar as duas atendentes que não davam conta de atender a todos os clientes.

- Estou indo para lá ajudar na organização... Está ficando lindo! - A outra falou, antes de sair rapidamente da loja. Inka limitou-se a balançar a cabeça.





No domingo de manhã, Inka chegou ao shopping antes de abrir. Dirigiu-se direto para a loja, para vestir-se conforme a ocasião pedia. Enquanto esperava o elevador no estacionamento, buscava concentrar-se no que tinha para fazer. Apesar de não concordar com esse tipo de evento em shopping, sabia que as pessoas que estariam lá buscavam saber coisas de suas vidas e isso a fazia sentir-se com uma responsabilidade muito grande. Sabia que tinha sensibilidade e poder para ver coisas que outros não tinham, mas sabia também que esse dom tinha que ser canalizado para ajudar e isso era a parte mais difícil, pois como saber se com as informações que dava às pessoas, estava ajudando-as ou não? Como saber de que forma as pessoas usavam as informações que recebiam? Isso muitas vezes tirava-lhe o sono. Utilizava a quiromancia como um inteligente esquema de orientação sobre o corpo, a mente e o espírito; sobre a saúde e o destino. E não como um mero sistema de adivinhação, como muitos pensavam.

Entrou no elevador imaginando o dia que teria pela frente. O elevador parou no andar de baixo e, neste momento, arrependeu-se de não ter descido pelas escadas.

- Bom Dia Inka!

- Olá Raul.

- Ora , ora... Tão cedo? E no domingo? Normalmente não trabalha domingo, que houve?

Suspirou com a pergunta irônica de Raul.

- Hoje vou trabalhar - Limitou-se a responder.

O elevador parou e ela desceu... Ele atrás.

- Inka... Espera... Vamos conversar...

- Não posso Raul. Tenho compromisso agora e já conversamos tudo que tínhamos para conversar. - Falou sem olhar para o lado. Ele puxou-a pelo braço... E a fez parar.

- Esta com ele não é? Aquele Lucas, vocês estão sempre juntos!

- Raul me solta!

- Responde! Me deve isso. Estão sempre juntos. Me deixou por causa dele, não é?

- Não te devo satisfações da minha vida Raul, mas Lucas é meu amigo! Me solta! - Puxou o braço e continuou andando. Ele não desistiu.

- Você não vale nada Inka! Devia ter ouvido a todos quando me falavam de você!

Ela parou de forma abrupta e olhou para ele.

- O que seus amiguinhos riquinhos falavam Raul? Não! Não diga, vou tentar adivinhar: “O que você faz com essa cigana Raul? Ela vai te roubar! Essa gente não presta” Era isso? -  Virou as costas e continuou andando.

- Sim! Mas não é a isso que me refiro. Diziam outra coisa, que sou obrigado a concordar. Você é uma vadia! Uma cigana vadia - A última afirmação foi aos gritos.

Ela virou-se e limitou-se a caminhar até ele, lentamente e de forma sensual, deixando-o sem ar. Aproximou-se o suficiente para o cheiro dela inebria-lo. Viu-o fechar os olhos... E falou, baixinho no seu ouvido:.

- Uma cigana vadia... Que você quer de volta não é Raul? Mas ouça com atenção. Nunca mais! Entendeu? Nunca mais!

E se afastou deixando-o parado, olhando-a, extasiado daquela proximidade que ele tanto desejava novamente.





Às 10 horas, Inka atendeu o primeiro cliente. Percebeu entre um e outro que o movimento do lado de fora estava intenso. A maioria das pessoas tinham praticamente as mesmas preocupações e indagações. A mulher mais velha perguntou: “Quero saber se meu marido me trai.” A jovem só queria saber: “Vou casar com João?” A moça preocupada com o futuro indagava: “Quantos filhos vou ter?”  E o Homem nervoso se limitou a perguntar: “Vou conseguir esse emprego?” E assim, passou quase toda manhã.

Próximo ao meio dia recebeu um rapaz, achou extremamente simpático e delicado. Queria saber se o namorado o traía com o melhor amigo, fez a pergunta constrangido. Inka sorriu enquanto segurava sua mão. Ela o tranquilizou e depois de alguns minutos ele ficou à vontade. Conversaram por quase meia hora e ela falou a ele que não se preocupasse em descobrir isso, pois existem muitas mudanças que chegam causando um terremoto em nossa vida, mas depois percebemos que o movimento ruidoso serviu para desalojar determinadas certezas e trazer outras. Disse a ele que, em breve, encontraria um amor sincero. Ele pediu uma simpatia para atrair bons fluidos e esse amor que ele tanto queria viver, pois confessou que não amava o atual namorado e sonhava em viver um grande amor. Ela sorriu.

- Certo... Faça o seguinte: antes de sair de casa, quando for tomar seu banho, pegue uma rosa vermelha e deixe-a ferver por alguns minutos em um litro de água. Deixe esfriar e acrescente uma colher de mel puro. Misture e jogue essa água por todo o corpo. E só depois tome seu banho.

- Vai funcionar? - Ele riu constrangido.

- Depende mais de você... Do que de mim.

Estendeu a mão e colocou, delicadamente, os dedos em sua testa, completou com a voz suave e olhando-o nos olhos:

- Sua vontade é aliada de seu destino. Não se esqueça disso.

Ele ficou por alguns instantes preso naquele olhar... Até que ela se moveu e desviou o olhar... Levantou-se indicando que a consulta havia terminado. Ele fez o mesmo.

Pagou a consulta e despediram-se. Antes de sair, ele virou-se para ela e falou que sua amiga entraria logo depois dele.

- Ela não acredita muito. Portanto não liga se ela for meio... Meio...

- Descrente? - Respondeu enquanto sentava-se do outro lado da mesa para aguardar o próximo.

Ele riu.

- Ia dizer... Estúpida.

Riram juntos...





Inka não precisou levantar os olhos... Foi como se soubesse quem estava na sua frente, naquele momento. Flashes do olhar de sua avó vieram imediatamente em sua mente. Lembrou-se do dia que subiu na carroça com destino incerto...

Destino.... Destino... Destino...

Essa palavra martelava em sua mente... Levantou os olhos... E encarou aquele olhar... Foi tomada pela surpresa. A mulher alta, parada à sua frente... Era a  materialização de suas lembranças, viu o sorriso, inseguro, mais lindo que jamais viu na vida e o medo se apossou de sua alma... “Virá até você”. Lembrou-se imediatamente das palavras... Estava ali, parada na sua frente. Não! Sua felicidade não poderia ser na forma de uma mulher... Linda... Com um olhar que faria o maior iceberg derreter... Os traços finos terminando nos lábios grossos convidativos, ombros largos  fazendo jus ao corpo atlético... Não! Balançou levemente a cabeça na tentativa de mudar o foco de seu pensamento. Sentiu vontade de tomar a narrativa de sua existência em suas próprias mãos, pois precisava, neste momento, mostrar ao destino que ele estava enganado. Mais algumas descobertas e...


Percebi que em situações de descontrole emocional, todos os poderes que acredito que tenho vão parar em  algum lugar que ainda não descobri onde fica... Ela continua me olhando de forma indecisa, não sabe se entra ou se dá as costas e vai embora... Percebo que a ação tem que ser minha...

- Sente-se... - Consegui dizer.


ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que vai publicá-la em versão impressa (livro) e digital (ebook) em  2017, será o sexto livro da Coleção Arco-Íris - Primeiras histórias de Diedra e Wind, por isso a história não está mais disponível na íntegra. Aviso sobre direitos autorais Copyright © Wind Rose e Editora Vira Letra . Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfics, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora.

4 comentários:

  1. Essa é a quinta vez que vou ler esse conto. Como todos os contos da Wind, A Cigana é uma delícia, ops, o conto, se bem que essa ciganinha não é nada mal né? Vou amar ler aqui, acho mais emocionante no blog. Parabéns Wind, é sempre um prazer imenso ler seus escritos. Bj

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  2. Aiii, ja estou amando... Adoro historias com esse ar de magia e vc sabe expressar isso como ninguem quando escreve... Super ansiosa pelo proximo capitulo...bjuuu

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  3. A postagem deste conto no Blog me traz sentimentos conflitantes... Amo vê-lo aki e mesmo assim sinto um tanto de ciúmes por isso... Esse cto é o meu favorito, fato q já alardeei aos 4 ventos. Wind amada és uma escritora maravilhosa assim com ESSE cto é magnifico.
    Babando sempre por essa estória divina...

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  4. Huuummmm o que será que vem por aí?!

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